Enfrenta o medo com o superpoder da respiração
Há uns anos fui com a minha filha ao dentista pela primeira vez.
Tudo parecia pacífico até chegarmos à sala de espera. Observo que ela começa a ficar impaciente: pernas agitadas e os glóbulos oculares viajavam para tudo o que era movimento naquele espaço. Reconheci o estado. Era a ansiedade a instalar-se devagarinho.
Lembrei-me de uma espiral de respiração que vi num livro. Desenhei-a na minha mão e mostrei-lhe. Começámos a inspirar enquanto o seu indicador percorria a linha da espiral. Chegado ao primeiro ponto iniciámos a expiração, até ao ponto seguinte. E assim continuámos a inspirar e a expirar, conscientemente, continuando a seguir a linha com o seu dedo.
Quando chegou a hora de entrar, ela estava mais calma. Mas o desconhecido assusta e a cadeira do dentista voltou a acelerar tudo. Depois de conversa, colo e muito mimo, lembrei-me outra vez da espiral. Não foi milagroso, mas melhorou. A atenção passou da anestesia para a respiração, e isso ajudou muito!
O que aconteceu ali tem uma explicação: a respiração lenta e consciente ativa o sistema nervoso parassimpático, o estado de calma do nosso corpo. Interrompe o ciclo de alerta que o medo dispara, e faz com que o coração e a mente abrandem e tudo fique mais claro. Nas crianças pequenas este mecanismo é especialmente direto porque o corpo ainda não tem tantas camadas de defesa. Quando o foco vai para a respiração, vai mesmo.
O medo cria filmes mentais que, na maior parte das vezes, nunca acontecem. Cabe-nos a nós, adultos, mostrar às crianças como fazer para mudar isso.
A respiração é uma dessas ferramentas poderosas que, como costumo dizer, está sempre connosco e é grátis. Só precisamos mesmo de nos lembrar de a usar.